Nando Reis lança novo disco de inéditas intitulado ‘Jardim-Pomar’

Por: Assessoria de Imprensa

Após quatro anos, Nando Reis presenteia o público com seu novo disco de inéditas, “jardim-pomar”. Com doze canções, o novo trabalho é preenchido com funk, rock e balada. Violões, guitarras, baixos, baterias, teclados, sopros e cordas encorpam e dão forma e textura ao décimo álbum solo do cantor.

O disco foi moldado com muito cuidado e de uma forma diferente de outros trabalhos do cantor. São onze faixas totalmente inéditas, “Concórdia” é a exceção, foi gravada há 10 anos por Elza Soares.

As gravações começaram em Seattle, Estados Unidos (Soundhouse e SunyataSound) e, após seis meses, Nando finalizou o disco em São Paulo (Estúdio Trama e Estúdio Space Blues) e uma partezinha no Rio de Janeiro (Cia dos Técnicos). Barrett Martin e Jack Endino, amigos de longa data do cantor, foram os responsáveis pela produção de “jardim-pomar”.

Nando abre o disco com “Infinito Oito”, que ganha um tom animado com os metais e com um poderoso sexteto de backingvocals e segue com a questionadora “Deus Meu”. Na animada “Inimitável”, exalta o nosso dever de aproveitar a vida com os versos: “Se vamos todos morrer / Então vamos tratar de viver”.

Nando Reis lança ‘Jardim Pomar’ (Credito: Carol Siqueira)

O disco continua com a delicada“4 de Março” e faz uma verdadeira declaração de amor com “mas não consigo dormir sem seus braços”, em “Só Posso Dizer”. “Concórdia” é a sexta canção, que toca em sentimentos mais profundos, como a gratidão.

Em “Azul de Presunto”, Nando convocou um time de peso: Theo Reis, Sebastião Reis, Arnaldo Antunes, Branco Mello, Sérgio Britto, Paulo Miklos, Pitty, Luiza Possi, Tulipa Ruiz e Zoe Reis dividem o microfone com o cantor para embasar o refrão de “sou o que sou”.

O som da máquina de escrever anuncia a riqueza poética de “Lobo Preso em Renda”. Nando colocou todas suas impressões em “Pra Onde Foi?”, que é uma daquelas canções que não importa quem está nos vocais, todos saberiam dizer que a canção é do cantor.

Nando é o autor de todas as letras de “jardim-pomar”, a única parceria é em“Como Somos”, onde Samuel Rosa fez a melodia e Nando, a letra. A música ganha ainda mais leveza com os backingvocals de Hannah Lima e Gil Miranda.

O disco vai se fechando com a leve “Água-Viva” e com a contemporânea “Pra Musa”. A última canção é a outra versão de “Só Posso Dizer”, dessa vez com vocais femininos e algumas diferenças de arranjo.

“jardim-pomar” é um trabalho totalmente independente e será lançado pelo selo Relicário nas plataformas digitais, em CD, vinil e k7.

A capa do novo CD de Nando Reis foi assinada pela artista plástica Vânia Mignone.

SOBRE O TÍTULO

O título Jardim-pomartoma de empréstimo uma imagem de Murilo Mendes num de seus mais belos livros, A idade do serrote. No texto de Murilo, somos reenviados ao jardim da casa paterna, que se confunde também com o paraíso, conforme a narrativa bíblica. Nando Reis parece reconstituir, com suas canções, um jardim-pomar inteiramente seu, no qual também ecoa a memória numa paisagem feita de diferentes tempos e espaços. Entre Deus, o amor, o conhecimento, a morte, a criação, o passado e o futuro, o sujeito se move como um estranho e enérgico jardineiro.

Em “Infinito oito”, ele surge multiplicado, fragmentário. Parece inútil recorrer às noções de identidade ou inteireza. Toda busca de explicação e de unidade resultaria em algo paradoxal: “Dentro de mim um corte /Um rio com mil marés /Por azar ou pura sorte /Não rezo e tenho fé”. O jogo é permanente, o sujeito é um enigma em movimento: “Fui cortado ao meio /Não juntam as metades /Um lado é espelho / O outro só reflexo”. Em todas as canções, somos colocados frente à frente com uma identidade que só se pode definir pela indefinição. Ouvimos ainda em “Infinito oito”: “Completo universo /Complexo”. Mundo distante dos binarismos, portanto: “Não é nenhum dos dois”.
A canção “Azul de presunto” é um jogo que exibe o prazer que advém da impossibilidade de definir identidades. A saúde já não se encontra no repouso da unidade: “Sou ou não sou / Eu não sei mais lembrar quem eu sou / Sou o que sou / E ninguém vai dizer quem eu sou”. Como se vê, a singularidade nasce da pura afirmação, ou ainda, de uma existência afirmativa, que aceita o enigma e faz dele uma deliciosa tautologia: “sou o que sou”. O jogo de identidades, na gravação, é também um prazeroso entrelaçamento de vozes que se confundem, se afastam e se reúnem numa câmara de ecos ou de espelhos. A levada dançante é só mais uma afirmação da leveza de um mundo que não se baseia em verdades estáveis, ideias fixas e identidades prontas.

Neste mundo móvel erguido por Nando Reis, mesmo Deus é, a um só tempo, presença e ausência. Afinal, seria impossível pensá-lo fora dessa espécie de presente total, quando todas as formas, mesmo aquelas invisíveis, atualizam-se em turbilhão: “Deus não se compreende / é o tempo motor / invisível presente / sedativo à dor / Onde você está? / Quando vai aparecer?”. E ainda: “Quando vou te encontrar? / Onde foi se esconder?”.Nem Deus significa, portanto, promessa de descanso e imobilidade. Há quem não suporte a sensação e, como um “Lobo preso em renda”, esconda-se a si mesmo em uma “camuflagem / antissuicida”. Mas há quem recuse “o fogo fácil farto de artifícios” e faça uma aposta mais alta e mais lúcida: “Não é possível que a gente não encontre um caminho / Uma forma de se entender / Você diz que chegou ao limite / Não basta o limite da vida que vai findar?”

Sim, nas aleias desse Jardim-pomar não poderia faltar a perspectiva da morte. Nando Reis não se esquiva: “A gente morre a vida é passageira/ Escorre lenta vai minguando e ‘aqui jaz’”. Mas tampouco vê na inevitabilidade o motivo de uma desistência diante do agora, e propõe: “Se vamos todos morrer / Então vamos tratar de viver”. Tal convite pode levar mesmo a uma extrema recusa da morte, à sua derrota por meio da poesia, que irrompe acima do provisório numa espécie de bandeiriano salto-imortal: “Vou pra longe procurar, vou para Pasárgada / Vou me vingar, eu vou matar o tempo e ser imortal”. Não é por acaso que uma canção – “Pra musa” – retorne, contemporânea e pop, à mitologia clássica para cantar aquela entidade inspiradora da criação artística, e então ouvimos uma aposta no tempo sem-fim que é sobretudo compromisso com o recomeço: “E nunca é igual / Não vou repetir / Não posso acabar / Nunca chego ao fim / Não há nada igual / Quando venho aqui / Não vou terminar…”. Somente a criação e o amor podem refazer as equações do tempo, remodelar seus fluxos, trapacear suas ordens, como em“4 de março”: “Tanto tempo e ainda é muito pouco / Temos mais futuro que passado”. E “Concórdia” propõe uma visão igualmente prospectiva: “A vida que ainda vamos viver / Eu e você”.Em “Água viva” deparamos com esse modo de olhar que desloca sutilezas: “Não estamos sós / Somente sozinhos”.

Assim, as canções abandonam os extremos fáceis da amargura ou do otimismo, e seguem por sentimentos mais complexos, como a gratidão, como em “Concórdia”, que afirma: “Deus que deu flor nessa água / Som às palavras / Chão pra eu pisar”, remetendo a antigas canções como “Foi Deus”, composição de Alberto Janes que virou clássico na voz de Amália Rodrigues, ou a célebre “Gracias a la vida”, de Violeta Parra.

Os diferentes estados de espírito dão uma larga dimensão humana a este conjunto de canções. E em pelo menos duas oportunidades Nando Reis se volta para a tradição da canção brasileira,como se nela reconhecesse tanto um acervo musical quanto existencial. Assim, “Como somos”vai buscar um grande sucesso de Orlando Silva, “A jardineira”, marcha-rancho composta por Benedito Lacerda (“Oh jardineira / Porque estás tão triste? Mas o que foi que te / aconteceu? // Foi a camélia / que caiu do galho / Deu dois suspiros / E depois morreu”) para se preguntara cerca da melancolia: “Ó triste jardineira / Porquê a camélia deu suspiros tão mortais?”. A canção de amor tem um belo momento em “Só posso dizer”, que dialoga diretamente com “Volta”, de Lupicínio Rodrigues (“Não consigo dormir sem teu braço”) ao declarar: “Mas não consigo dormir sem seus braços”.

Blues, rock, balada, tudo dá nas terras deste Jardim-pomar. Violões, guitarras, baixos, baterias, teclados, sopros, cordas, tudo cabe em arranjos que exploram atmosferas, volumes, texturas. E a voz, sempre, áspera em sua fala, em sua busca de paisagens. Os frutos estão aqui: som e sentido, som e absurdo, som e fúria, som e imprevistas ternuras.

Eucanaã Ferraz

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